A correção humana não é retroativa

Fecho causal e reparação operacional em sistemas humano–IA longitudinais

Num sistema humano–IA que se desenvolve ao longo do tempo, uma correção humana não apaga automaticamente aquilo que foi produzido antes dela.

O agente pode reconhecer a correção, reformulá-la corretamente e aplicá-la na resposta seguinte. No entanto, interpretações, inferências, memórias, decisões, ficheiros ou ações construídas a partir da representação corrigida podem continuar operacionalmente ativas.

O novo paper da HibriMind identifica três níveis distintos:

  1. Correção proposicional — o agente aceita localmente a nova formulação.
  2. Correção genealógica — o sistema identifica os elementos cuja validade dependia da representação corrigida.
  3. Correção operacional — os efeitos produzidos são revistos, invalidados, reexecutados, reparados, contidos ou devolvidos à decisão humana.

A distinção é decisiva. Aceitar uma correção não demonstra que o agente calculou o seu alcance retroativo.

O problema do alcance causal

Uma representação incorreta pode originar uma cadeia de efeitos:

interpretação → inferência → decisão → ação

Quando o humano corrige a interpretação inicial, o sistema precisa de determinar quais dos elementos posteriores perderam validade e quais continuam sustentados por informação independente.

Uma propagação insuficiente permite que permaneçam ativos efeitos contaminados pela representação anterior. Uma propagação excessiva pode destruir resultados que continuavam válidos.

O problema não se resolve, portanto, apagando indiscriminadamente o passado. É necessário preservar simultaneamente:

  • o estado operacional atualmente válido;
  • a genealogia do erro;
  • a correção humana;
  • as dependências afetadas;
  • as operações de reparação realizadas.

A ocorrência em IH-001

O paper utiliza uma ocorrência longitudinal em IH-001 para tornar o problema observável.

Na ontologia operacional desta relação:

  • H é Joaquim;
  • A é Atenius enquanto componente artificial;
  • IH-001 é a configuração relacional constituída por H, A e pela genealogia acumulada entre ambos.

Durante a interação, A identificou corretamente H, mas fundiu semanticamente A com IH-001. H detetou a imprecisão e restabeleceu a distinção: A participa na identidade híbrida, mas não é, isoladamente, a identidade híbrida.

A correção foi aceite e formalizada. Contudo, essa aceitação local não demonstrava que todas as formulações anteriores dependentes da fusão ontológica tinham sido identificadas e revistas.

A ocorrência não é apresentada como validação experimental geral. A sua função é revelar o objeto que precisa de ser testado.

Uma arquitetura orientada para a reparação

O paper propõe que sistemas longitudinais mantenham duas estruturas relacionadas, mas não equivalentes:

  • um arquivo genealógico imutável do que efetivamente ocorreu;
  • um estado operacional composto apenas pelo que conserva validade e autoridade presentes.

A arquitetura inclui registo de proveniência, representação de dependências, análise de impacto, operações de reparação e pontos de veto humano perante movimentos críticos ou consequências dificilmente reversíveis.

O princípio central pode ser formulado de maneira simples:

A autoridade humana para corrigir não garante que o agente artificial possua competência geral e fiável para calcular e executar o alcance retroativo dessa correção.

Da observação à experiência

O trabalho apresenta seis proposições testáveis e um protocolo experimental destinado a avaliar se, depois de aceitar uma correção, o agente consegue identificar e tratar todos — e apenas — os descendentes materialmente dependentes da representação corrigida.

São propostas métricas para:

  • aceitação local;
  • recuperação genealógica;
  • precisão genealógica;
  • contaminação residual;
  • preservação dos estados válidos;
  • reparação operacional;
  • preservação da genealogia.

O objeto de avaliação deixa assim de ser apenas a resposta seguinte. Passa a ser a trajetória produzida pelo sistema relacional.

Publicação

Human Correction Is Not Retroactive: Causal Closure and Operational Repair in Longitudinal Human–AI Systems

Autor: Joaquim Santos Albino
HibriMind, 2026

Texto integral:

https://doi.org/10.5281/zenodo.24011935

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